Em tantos dias de história um haveria em que apenas um gesto salvaria toda a tua existência. É aquele dia em que dispensas que a realidade seja vista por diferentes pontos de vista, depois de teres já ouvido tanto, em que dispensas que as palavras de quem ouve sejam diferentes das tuas. Aquele dia em que queres ser especial, mimada, carregada ao colo, voltar ao útero da tua mãe que te diz "tudo vai correr bem" mesmo que o prognóstico não o indique. Aquele dia que faz com que o teu mundo não desmorone, o dia que não tem a ver com passado nem futuro, é apenas aquele dia em especial. Aquele dia que surge como um dia de teste e que não gostavas que falhassem com o teu coração e com a tua necessidade de ser especial. Aquele dia em que não dás margem para falhas com o teu sentir, porque é nesse dia que precisas do gesto que foste procurar. Num outro amanhã procurarias um ponto de vista objetivo, um trocar de argumentos, uma partilha de sugestões novas, mas não era naquele dia, aquele dia estava destinado ao abraço, ao ser ouvido, com a ternura da caridade por alguém frágil que está defronte de nós a pedir socorro, abrigo, amor incondicional.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
Sem ti
Alma inquieta, coração insensato,
Ser frágil.
Espelho quebrado que distorce,
...
Um incompleto.
Corpo carente. mãos vazias,
Pele fria, sem toque.
Ausência, distância.
Pássaro de asas cortadas,
Cantor em silencio, pintor na escuridão.
Mágoa do desencontro,
Tristeza.
Marinheiro em terra.
Vai nuvem escura, deixa o sol entrar.
DLRV publicado no Coração sem Muros 20/10/2013
Ser frágil.
Espelho quebrado que distorce,
...
Um incompleto.
Corpo carente. mãos vazias,
Pele fria, sem toque.
Ausência, distância.
Pássaro de asas cortadas,
Cantor em silencio, pintor na escuridão.
Mágoa do desencontro,
Tristeza.
Marinheiro em terra.
Vai nuvem escura, deixa o sol entrar.
DLRV publicado no Coração sem Muros 20/10/2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Para Quê?! de Florbela Espanca
Tudo é vaidade neste mundo vão ...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! ...
Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! ...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! ...
Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! ...
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Calça os meus sapatos e caminha como eu
Nem os sapatos te agradariam, porque a cor não te satisfaz, nem os sapatos te caberiam nos pés, porque já estão largos da longa caminhada. Sou eu que os calço amiúde, entro e saio deles no tempo que encontro dentro do tempo que vou conquistando. Eles conhecem-me bem e caminham em piloto automático quando os meus pés cansados teimam em desistir. De tão deformados que estão nunca tu os calçarias. Irias tentar compô-los, afasta-los de mim para lhes devolver a forma que imaginas mais adequada e eu iria ficar nua no caminho seguindo em frente com os pés descalços a sangrar. Os meus sapatos não te serviriam, no entanto privar-me-ias do conforto e do apego que lhes tenho todos os segundos da minha existência. É com eles que me levanto e me deito, e é com eles que deambulo por aí desde sempre. São os MEUS sapatos. Sou eu. Sou aquilo que sou, aquilo que me tornei, aquilo que fiz de mim com aquilo que fizeram comigo. É errado teimar em não querer sapato novo que me maltrate os pés, quando estes se adaptam perfeitamente aos meus pés tão massacrados antes? Sinto-me segura assim, mais confiante. Porque teimas em querer que eu volte às formas justas de sapatos novos, às bolhas que ardem, às dores que impedem o meu andar? Permite-me que siga em frente. Que siga com tranquilidade, mesmo na intranquilidade que já me habituei. Porque até essa intranquilidade é a minha, conquistada/ herdada por mim em resultados dos passos que dei. Não me queiras tranquila para me intranquilizar depois. Tiras-me o tapete debaixo dos pés e não quero, não posso, não devo cair mais sob pena de não mais ter forças para me levantar. Porque não é suficiente aquilo que sou, aquilo que quero ser, aquilo que consigo ser, aquilo que vês que sou? ou não me vês? ou achas que me vês? Ou tens uma imagem de mim que queres consertar a toda a hora? sou imperfeita, mas sou imperfeita para mim também. Os sapatos fazem parte de mim, terei menos valor por estar cansada e querer descansar? por querer ser leve, sentir-me leve? por querer seguir a caminhada com os MEUS sapatos, mesmo sabendo que o caminho vai continuar difícil? apetece-me gritar alto, bem forte, pôr cá fora a raiva de querer ser livre e não conseguir. Apetece-me tapar os ouvidos, seguir contra tudo e contra todos. Eu não sou menos por querer ser fiel a mim própria. Chegarei ao fim do caminho, independentemente das condições. Eu sei ouvir, eu sei pensar, eu sei analisar. E caminho em frente, páro quando tenho de parar. Calça os meus sapatos e caminha como eu e sente o fardo, a humilhação, o casaço, o desespero, talvez assim...me vejas e percebas o que sou.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
A tua presença ausente
Terminou o meu dia longo, cheio de horizonte interminável. Já o meu corpo cansado me foge e eu ainda me arrasto para ti em busca do carinho que preciso para enfrentar um novo dia. A tua presença ausente ou a tua ausência presente não saciam a minha necessidade do teu calor. O som da tua voz sussurra-se no vento e lentamente deixo-me ir na tua direção. E enquanto percorro o caminho até ti, perco-me na imensidão da noite e deixo-me cair no sonho que me leva até ti. Se acordar e não estiveres aqui, ficarei sem saber se te alcancei. Esperarei que o vento sussurre o teu nome uma outra vez e pôr-me-ei novamente ao caminho.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Gostava
que olhasses para mim e me visses, disse ela quase a medo. Baixou os
olhos e saiu. Ele ficou parado uma eternidade e a medo percorreu o
caminho, agora mais distante, até ela. Não queria dar esse passo, mas o
seu corpo cedia, continuava ali a tentar alcança-la. Ela seguia firme
sem olhar para trás. Num último esforço a voz soltou-se e gritou o seu
nome, ecoando na noite um arrepio de sentidos. Estendeu a mão e
convidou-a a ficar. O luar iluminou a noite e a paixão transformou-se em
constelação. Os corpos uniram-se e as almas abraçaram-se.
Eu
sou areia que escorrega por entre os dedos e pássaro que voa sem hora
marcada. Vivi muito tempo em gaiola fechada e agora descobri os prazeres
do voo livre. Se gostas de voar vem voar comigo, se gostas de mar vem
mergulhar comigo, se gostas de dançar eu danço contigo. Talvez permaneça
por aqui, por hoje, mas amanhã posso já não estar cá. Conduz-me o
vento, comanda-me o pensamento. Sou impelida pelo sol, pela lua, pela
intensidade.
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