domingo, 3 de fevereiro de 2013

Hoje levo-te comigo





Hoje levo-te comigo no meu sono. 
Já depositei um beijo doce na tua face, 
já viajei até à tua boca e desci pelo teu pescoço.
Aconcheguei o meu corpo no teu, 
passei as minhas mãos pelo teu peito, 
desci e lentamente senti a tua paixão por mim.
Abraço-te agora, 
já quente do teu, do meu, do nosso calor, 
despida de roupa e vestida de corpo, 
sou agora pele com pele contigo.
Encaixo-me mais um pouco e beijo-te suavemente nas mãos.
Aperto-as contra as minhas e percorro com elas o meu corpo.
E é assim que me deixo voar bem alto, 
nas asas do tu sorriso e na leveza do teu abraço.
Estou agora a flutuar, libertando-me de mim, 
entraste em mim de mansinho, em gestos delicados, 
meigos, doces que fazem vibrar todo o meu ser.
Tomaste a minha alma nas tuas mãos, 
fizeste do meu corpo abrigo e campo florido.
Sinto-nos respirar calma e ofegantemente.
Sinto-nos balançar os corpos.
Sinto-nos fundir num só e esquecer, 
deixar de ouvir e apenas respirar, sentir, delicadamente
E depois devagar, com suavidade deito-me no teu peito, 
sinto as tuas mãos no meu cabelo e adormeço enfim, 
levando-te comigo no meu sono. 
Sabendo que estás bem, 
porque eu estou bem e tu...és...eu.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Vazio



Nunca me tinha apercebido que a minha cama era tão fria, tão grande e que neste quarto o silêncio dói. Vi agora que as paredes estão nuas e que tudo é vazio de cheiro, odor e toque. A TV ligada passa imagens e sons, companhia inerte com cor, sem pele e sem olhar. O silêncio dói e o tempo passa frio à espera que o sono me venha salvar.

Um pouco que foi tanto



Foi na ternura do teu abraço que me encontrei. Momento único de união entre o corpo e a alma. O Universo parou ou continuou a girar, não sei, perdi a noção do tempo. Sei que nesse hiato fui pele, mãos, corpo, cheiro, calor, emoção, voou de pássaro sublime bem alto no céu, pétala de rosa vermelha ardente de paixão, fui menina, fui mulher, fui céu, fui cama. Colei-me a ti com paixão, sofreguidão, calma, tranquilidade, ansiedade e ternura. Sou agora eu, um pouco mais feliz, um pouco mais serena, um pouco mais completa. Um pouco que foi tanto e que tanto fez de mim.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Horas Rubras 

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez,
na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta,
o beijo que procuras!
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Doce aroma

O dia está no fim, 
vinha apenas com a firme intenção de um banho quente e dormir. 
Foi a surpresa da tua presença que me acordou 
e entraste comigo na banheira. 
A nossa presença aqueceu os nossos corpos frios e cansados 
e a água quente iluminada pelas luzes de cheiro e calor 
invadiram os nossos sentidos.
Foi num instante que frenéticos nos deixamos ir. 
Explorei o teu corpo, saboreaste tudo em mim. 
Deixamos que o desejo tomasse conta de nós 
e comandasse aqueles momentos de loucura carnal. 
Sucumbimos ao cansaço mas deixamos no ar o doce aroma da paixão.

Pausa breve

Senti-te hoje quando os meus olhos se fecharam para te sonhar. 
Uma pausa breve dos minutos que correm por mim. 
Quase senti o teu cheiro e o teu suor em mim 
e o meu corpo moveu-se lentamente fremente do nosso prazer. 
Ausentei-me desta esfera e deste mundo que tanto me dói 
e deixei-me ir na loucura da recordação do teu beijo. 
Senti-te invadir o meu espaço e o meu corpo tremeu, gemi. 
Respirei ofegante na tua ausência tão presente 
e quis possuir-te ali de todas as formas que já nos possuímos 
imaginando ir mais além. 
O meu corpo já não me pertence. 
Saí de mim ao encontro do calor das tuas mãos 
e regresso ardente, num odor de paixão que ainda me invade.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Simplifica e descomplica...

Transcrevo estas palavras que bem poderiam ser minhas de tanto que já refleti sobre elas...


" Manda um mosquete valente no orgulho. Manda um breque bem forte nas conversas de chacha que te dizem que deves ser difícil, que deves jogar o jogo do avança e recua com quem amas. Manda uma cabeçada à Mike Tyson nas lérias que te ensinam a não seres fácil perante quem amas. Se amas: sê fácil. Abre os braços, abre as pernas, abre a boca: abre-te para quem amas. Se amas: não compliques. Se queres um beijo, beija; se queres um abraço, abraça; se queres um orgasmo, despe e salta e dança e sua e geme. Se queres amar: ama. Não olhes a convenções. Prefere as pulsões. Prefere os corações, as animações – até mesmo os neutrões. Liga-te à electricidade, liga-te à corrente: sê a tua corrente. Esquece as correntes de pensamento que te fecham as portas, esquece as correntes de preconceitos que te ofuscam o desejo, esquece as correntes de medos que te castram o sentir. Se amas: sê fácil. E ser fácil é bem fácil: se queres dizer “não” dizes “não”; se queres dizer “sim” dizes “sim”. Simplifica: não obrigues quem amas a perceber o que está por detrás do que dizes, não obrigues quem amas a adivinhar que queres dizer exactamente o contrário do que acabaste de dizer. Diz o que pensas exactamente assim: como o pensas. Não te faças de difícil: fazer de conta vai, por vezes, além da conta. E depois podes até acabar tu por não entrar nas contas. Ainda não te contei? Conto-te agora então. Lê com atenção.

Jogar com quem amas só é interessante sobre os lençóis e entre as quatro paredes de um quarto. Jogar com quem amas só é interessante quando se trocam fluidos e lambidelas mais ou menos demoradas. Jogar com quem amas só para fazer de conta que és muito forte e que é quem amas que tem de te perseguir e seduzir e essas balelas todas não tem interesse nenhum. E torna-te, se insistires nessa alarvidade intelectual e emocional, em desinteressante. Em entediante. Numa valente pessegada de seca. Porque nada é mais secante do que quem sabe o que quer e aparenta – por uma questão de orgulho ou de racionalização doentia – não querer exactamente aquilo que quer. Mais uma vez: simplifica. Mais uma vez: descomplica. Sê e diz e faz o que queres ser e dizer e fazer. Se te apetece abrir os braços a quem te magoou: abre; se te apetece abrir as pernas a quem te fez sofrer: abre; se te apetece enfiar a língua na boca de quem devias odiar: enfia. Despreza as desprezíveis leis do amor-próprio. O amor-próprio é uma treta. Só te amas se te sentires bem contigo. E só te sentes bem contigo se estiveres bem com tudo aquilo que és. E se amas quem amas só te sentes bem com tudo aquilo que és se te sentires bem com aquilo que amas. E quando se ama quase tudo (ou tudo) aquilo que és é aquilo que amas. Por isso: ama-te amando (ou deixando-te amar por) quem amas. Por isso: não tenhas receio de fazer de Deus. Por isso: não tenhas receio de perdoar. Plenamente perdoar: sem saber porquê, sem entender de onde vem perdoar vem. Perdoar. Abrir. Não tenhas receio de esquecer o que tem de ser esquecido, de sepultar o que já foi. Enterra o passado. Sim: enterra o passado. Antes de que te enterres, definitivamente, a ti. Antes de que te enterres, definitivamente, em ti.

Sê uma rameira, uma prostituta, uma vadia, uma meretriz. Sê fácil para quem amas. Perdoa quem amas. Dá uma trancada no orgulho e dá uma trancada – ou várias – em quem amas. Não evites viver. Não evites, também, sofrer e fazer sofrer de novo, magoar e ser magoada de novo, chorar e ser chorada de novo. Não evites arriscar, não evites temer estar a ir longe demais. Não evites: não te evites. Porque é viver, e mais nada, que é inevitável.

in "EU SOU DEUS"
(encomenda exclusiva de exemplares autografados pelo e-mail pedrochagasfreitas)